Conheça a trajetória de Samir Daher, uma das maiores autoridades em medicina do esporte
Por: Redação HOSP/EDB Comunicação - 29/11/2019

Conheça a trajetória de Samir Daher, uma das maiores autoridades em medicina do exercício e esporte

O Dr. Samir Daher, uma das maiores autoridades brasileiras em medicina do exercício e esporte, possui sólida experiência na área. Daher já foi presidente da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, além de ter coordenado e dirigido grandes torneios esportivos, como Jogos Pan-Americanos, Maratona Internacional de São Paulo e Brasil Open de Tênis. Além disso, ele também é fundador do Centro de Estudos em Medicina do Exercício – CEMEX, uma associação sem fins lucrativos criada para promover informação de excelência sobre a medicina do exercício e do esporte e os seus benefícios para todos os agentes envolvidos. Além da presidência do CEMEX, Daher ainda é o atual Diretor do Departamento de Medicina do Exercício e do Esporte do Clube Pinheiros – um dos maiores celeiros olímpicos do País – e do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público (IAMSPE).

Confira a Entrevista com o profissional:

HP: Pode nos falar um pouco da sua origem, formação e porque optou por abraçar a medicina?

SD: Sou nascido e criado em São Paulo, filho de imigrantes, com um início de vida bem difícil como muitos pelo Brasil. Estudei em colégio estadual, depois tive a felicidade de ir para um colégio privado. A opção por medicina veio quando descobri que ficava em paz quando podia ajudar alguém em sofrimento físico. Com o tempo, percebi que a medicina iria me oferecer essa sensação sempre. Foi assim que optei pela carreira médica.

HP: Como foram os anos de formação, que peculiaridades o senhor pode apontar?

SD: Os anos de formação na medicina foram interessantes. Estudei na Faculdade de Medicina do ABC onde me formei em 1992. Uma peculiaridade que me marcou bastante foi a ausência de referência médica na família ou de pessoas próximas. Sem uma referência, foi necessário um desbravamento individual em qual rumo seguir. Fui buscando informação daqui e dali, não tinha uma visão após a faculdade do que era importante e o que não era. Fui trilhando esse caminho com a intuição. Isso foi o que mais marcou e, graças a Deus, a vida sempre trouxe oportunidades que abracei, buscando sempre esse caminho direcionado pela intuição. Sigo assim até hoje.

HP: Porque a especialização em Medicina do Exercício e Esporte?

SD: Sempre tive na minha formação a prática esportiva. Fui atleta competitivo, mas como muitos no Brasil, tive que optar pelos estudos ou pelo esporte. Então pensei: paro de treinar e competir na época do vestibular e, quando terminar, volto. Esse período de um ano, um ano e meio parado, entre 16 e 17 anos, que é onde isso normalmente acontece, é uma fase muito grande na especialização do esporte. Parar um ano e voltar é bem difícil para acompanhar o ritmo. Então decidi focar nos estudos.

No entanto, na época não existia medicina do esporte como tem hoje. Dessa forma, optei por ortopedia, que era uma área que, pelas características de lesão do esporte e a lesão do atleta, sempre me chamou atenção. Fiz minha residência médica em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital do Servidor Público Estadual – SP (HSPE), em 1996, e me formei especialista em Ortopedia pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT). Depois disso, começaram a aparecer as oportunidades acadêmicas mais específicas. Então, cursei pós-graduação em medicina do esporte pela Universidade de São Paulo (USP), em 1997, e me especializei pela Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte. Já em 2000, também graduei na especialidade pela Universidade de Toronto/Canadá.

HP: Quais as maiores barreiras que o senhor venceu para atingir esta especialização?

SD: A maior barreira é a falta de cultura aqui no Brasil do conceito da medicina do esporte, tanto em instituições esportivas, como nas hospitalares. Nós ainda sentimos a falta de cultura do aspecto atual da medicina do exercício e do esporte, principalmente nas questões educativa, preventiva.

Mesmo no esporte, até pouco tempo atrás, o que existia era o médico que cuidava de traumas, mas que acabava atendendo em campo. Mas não existia o conceito.

Entendo, porém, com o tempo e as evidências a nosso favor, já estamos começando a romper esses obstáculos, o que é benéfico não só para o paciente, como também para as instituições. É importante entender que é mais inteligente e muitas vezes mais barato investir em educação e prevenção do que tratamento. A medicina do exercício e do esporte é uma solução financeira para as instituições também.

HP: Quais foram seus maiores desafios ao longo da sua carreira e como foram vencidos?

SD: O maior desafio vem sendo implementar uma cultura de medicina do exercício e do esporte em larga escala. É um conceito que estamos batalhando para tonar cada vez mais presente na sociedade, porque é o que de fato tem resultado. Já temos cases bem-sucedidos, como no Clube Pinheiros e no Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual de S. Paulo (IAMSPE), mas é preciso ampliar, levar essas práticas para toda a sociedade. Claro, há ainda a questão financeira e, no Brasil, tudo é difícil.

É preciso entender que o atendimento primário à saúde, de menor complexidade, é capaz de resolver 80% dos problemas, com um custo muito baixo. Mas aqui no Brasil não investimos nisso, fazemos ao contrário: deixamos o problema ficar grave. Aí, claro, a solução encarece, o que compromete todo o sistema. Esse é um dos grandes problemas que vivemos no sistema de saúde. Há ainda o mais importante, que é o paciente: se tivesse sido educado e orientado, poderia não passar por todo o sofrimento de uma doença crônica, o que inclui as vezes procedimentos mais invasivos. Então, o aspecto preventivo e educativo são os maiores desafios.

HP: Como o senhor vê atualmente a medicina e o ensino médico no Brasil?

SD: Nós estamos passando por um processo de transformação com uma grande abertura do número de faculdades e muitas delas ainda estão no início do seu processo de formação e não estão 100% estruturadas. Com isso, é normal que se tenha uma quantidade de profissionais ainda com uma qualificação distante da ideal. Isso leva um tempo até que todas essas instituições estejam consolidadas. É uma luta muito grande do Conselho Federal de Medicina para que essa situação tenha um equilíbrio. Como em diversas as áreas do Brasil e do mundo, o imediatismo está muito grande. São conceitos que estão mudando, a leitura acaba sendo de uma forma mais dinâmica, a quantidade de informação é muito grande, as vezes é difícil se aprofundar em um assunto e abraçar todos. Então, tem que haver um equilíbrio nesse processo, para que tenhamos quantidade e qualidade.

HP: Pode nos contar algum episódio marcante de sua carreira e como passou por ele?

SD: Tive vários episódios marcantes em minha carreira, mas acho que o grande diferencial que tive foi quando me encontrei com o Professor Milton Iacovone, um profissional já com experiência imensa, com uma qualificação muito grande e que estava perto de sua aposentadoria, apesar de não querer. Houve uma aproximação natural dentro do hospital onde fiz a minha residência médica e, ainda recém-formado, recebi uma proposta de trabalho. Nesse momento conversei com o Professor e fiz a seguinte proposta: eu seria o assistente dele e ele me ensinaria medicina do jeito que sabia. Foi um relacionamento profissional de 15 anos que tivemos e o início de uma grande amizade. O considero como meu pai na medicina. Aquela orientação que não tive no ambiente familiar, de como atuar, como ser, como agir, conceitos básicos de atendimento ao paciente e do sacerdócio de fato da medicina, ele acabou passando para mim no relacionamento profissional que tivemos.

HP: Que conselhos o senhor daria para os alunos que iniciam na medicina?

SD: Primeira coisa é fazer a medicina pelo sacerdócio. Não é uma área profissional semelhante a qualquer outra. Ela lida com a vida humana com vários fatores envolvidos, mas o mais importante é a saúde do indivíduo. Então, o médico que vai iniciar não pode só pensar pelo lado financeiro, fazer a medicina para ganhar dinheiro. Tem que fazer a medicina por fazer a medicina, servir e atender bem o próximo. O dinheiro obviamente é importante, mas é consequência do trabalho. Ele não deve inverter a ordem. Esse é o primeiro ponto do que penso e faço. E quem vai prestar medicina busque orientação, busque informação, tenha vocação, tenha resposta do porquê você está iniciando na medicina, qual é a sua razão, tenha isso em mente que acredito que vai facilitar muito o seu caminho, e seja sincero com você mesmo, esse é um ponto importante.

HP: E para os profissionais que optam pela Exercício e Esporte?

SD: No início da minha carreira na medicina esportiva, quando ela ainda não estava consolidada e estava sendo implementada, eu estava na presidência da Sociedade regional de São Paulo e palestrava em Congressos para defender o conceito. Entre outras questões, me perguntavam se eu escolheria essa especialidade. Minha resposta era assim: tem que gostar muito, é um campo que está se formando e vai ocupar o seu espaço, mas não é para o imediato, daqui a alguns anos vai estar consolidada. Então, não tinha uma resposta certa, tinha que se construir essa estrada. E hoje, quase 15, 20 anos depois que me fizeram essa pergunta, a minha resposta é mais segura, que eu faria a medicina do esporte. Acredito no exercício físico como ferramenta de promoção de saúde e também para tomar os cuidados com o atleta de alto rendimento.

Quando nós encontramos uma matéria na mídia que destaca, entre cinco adolescentes, quatro não fazem atividade física, é uma oportunidade imensa para o campo de trabalho, porque você tem alternativas para oferecer para a sociedade. Os profissionais que optam pela medicina do exercício e do esporte têm que ter essa vocação, tem que gostar desse campo, de uma área muito fascinante, e como observar o impacto do exercício físico no ser humano, quer seja em um indivíduo sedentário, indivíduo normal que busca promoção de saúde, indivíduo doente que quer manter a sua doença controlada ou em atleta de alto rendimento. Então é uma área muito fascinante e gostando disso, tendo paixão nessa, pode ter certeza que o resultado sempre vai ser satisfatório.

HP: Poderia nos fazer um balanço da sua carreira?

SD: Fiz uma opção no início da minha carreira como um médico ortopedista de formação, trabalhei muito em pronto-socorro, porque é uma área que é o primeiro atendimento onde nós aliviamos de fato o sofrimento das pessoas, em um momento muito importante de agonia, que pode ser um acidente de carro, um acidente com uma fratura exposta, por exemplo.

Trabalhei também bastante na área clínica, experiência com doenças do coração, parada cardiorrespiratória, pacientes que chegavam com problemas desse tipo. Porém, ao longo da carreira, fiquei na área ortopédica, mas não quis, após a minha formação de residência, me tornar um especialista de imediato. Atuei um período muito longo como médico ortopedista generalista, com uma visão geral da ortopedia. Não só em uma área, uma articulação como ombro, joelho, tornozelo ou coluna, que são regiões importantes sem dúvida, mas acabei optando por uma formação mais ampla. Depois, me especializei nas áreas mais relacionadas com o esporte, ombro e joelho, que são as grandes articulações mais acometidas no esporte.

Tive também uma experiência internacional que foi muito interessante, tanto com estudo no exterior, na Universidade em um país desenvolvido, o Canadá, e também uma carreira na Federação Internacional de Esportes. Essas experiências me deram uma visão muito grande de como era o mundo dentro desse conceito e de como tomar, diante disso, minhas conclusões. Então, toda essa trajetória acabou me levando a mudar minha carreira no meio do caminho, abrindo mão da ortopedia cirúrgica para poder me dedicar com maior ênfase a especialidade clínica que é a medicina do exercício.

Com isso, pude trazer todo esse conceito para formar o Serviço de Medicina do Exercício e do Esporte, sempre amparado na convicção, no conceito que busquei ao longo de toda minha formação, comprovando sempre através de estudos que demonstravam a teoria, o conceito e essa intuição que sempre tive comigo, estavam corretas. Comprovando isso de forma acadêmica, fica claro que essa metodologia é eficiente, o que acabou me auxiliando e direcionando ainda mais a minha carreira profissional.

HP: Há algo mais que gostaria de abordar que não tenhamos tratado nas questões acima?

SD: O mundo hoje está numa situação muito acelerada, muito dinâmica, muito rápida, principalmente nos mais jovens, e isso tem o lado positivo como tem o negativo também. E acredito que a questão é encontrar o equilíbrio entre a força da juventude com a experiência dos mais velhos para buscar uma harmonia entre as duas questões. A juventude não tem freio e os mais velhos acabam entrando numa linha mais conservadora. Se essas duas gerações estiverem alinhadas, o ganho é muito grande. Já quando elas entram em embate, o prejuízo é também é muito grande. Na medicina não é diferente. Ela tem que olhar para o conservadorismo, porém, ao mesmo tempo, olhar para as inovações que são inevitáveis, principalmente com o auxílio da tecnologia da informática, e poder com isso trazer um benefício maior para o paciente. Acho que essa é a missão da medicina, nós temos como obrigação cuidar da saúde dos indivíduos.

Mas para isso, é preciso entender que temos que usar a medicina para cuidar da saúde do indivíduo e não somente da doença. Temos que preservar as pessoas e a sociedade em seu estado saudável. Esse é o papel da medicina.

 

 

 

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